Thursday, 15 April 2010

Canal de Opinião, por Luís Benjamim Serapião (*)

“Participei, por isso Testemunho”

Sérgio Vieira: Autor de Livro Sem Valor Académico e Moral

Washington (Canalmoz) - Acabo de ler o capítulo seis, “ A União Nacional dos Estudantes Moçambicanos (UNEMO) e a luta patriótica”, do livro Participei, por isso Testemunho de autoria de Sérgio Vieira. Pelo título, o autor quer convencer os leitores de que o que vai dizer é verdade, e que não necessita de outras fontes literárias para corroborar a veracidade das suas afirmações: ele é a fonte primária, podendo os leitores estar seguros. Porém, quando se lê o capítulo seis, não restam dúvidas de que Sérgio Vieira é academicamente muito superficial e com moral muito lamentável. Por falta de tempo e espaço, vou reduzir o sumário desse capítulo aos seguintes comentários.

1 – Sérgio Vieira pretende passar por “fonte primária” do incidente que houve entre D. Custódio Alvim Pereira e os seminaristas da Namaacha.

Diz ele que a maioria dos estudantes moçambicanos (principalmente da década de sessenta) que emigrou para os Estados Unidos era constituída por ex-seminaristas “expulsos do seminário da Namaacha por D. Custódio Alvim Pereira”. (p. 171) Infelizmente, Sérgio Vieira nunca foi fonte primária deste incidente. O pior é que a sua ignorância quanto às regras por que se regia o seminário interdiocesano da Namaacha levou-o a concluir que D. Custódio Alvim Pereira foi quem expulsou os seminaristas. Ora, conforme as regras acima mencionadas, D. Custódio Alvim Pereira não tinha jurisdição para expulsar nenhum seminarista que não fosse da sua diocese. Por isso, D. Sebastião Soares de Resende, Bispo da Beira, que tinha seminaristas seus a estudar na Namaacha, deslocou-se a ests seminário para se inteirar do incidente. O interessante é que D. Sebastião falou muito amigavelmente com os seus estudantes, e não expulsou ninguém. Por sua vez, D. Custódio Alvim Pereira também não expulsou os dois seminaristas da sua própria diocese e que estavam envolvidos no caso. Note-se, que estes dois estudantes nunca emigraram para os Estados Unidos. Para o leitor poder ter uma ideia mais pormenorizada do caso, recomendo um artigo de minha autoria, intitulado “ The preaching of Portuguese Colonialism and the Protest of the White Fathers” (ISSUE a Journal of Opinion Vol. II, No.1, Spring 1972: 34 – 40.) Esta é uma das revistas publicadas pela Associacão de Estudos Africanos (African Studies Association) dos Estados Unidos.

2. Insinuações maliciosas de Sérgio Vieira

Recorrendo à malícia, Sérgio Vieira insinua que a União Nacional de Estudantes Moçambicanos (UNEMO), Secção dos Estados Unidos, era uma extensão da Frelimo e que não quis obedecer às ordens deste movimento. Ora, os estudantes/ex-seminaristas que, aliás, lideraram a UNEMO, Secção dos Estados Unidos, até a independência, nunca foram de forma alguma um produto da Frelimo. Conseguiram bolsas de estudos independentemente deste movimento. O African American Institute dos Estados Unidos estava em contacto com o presidente da União Africana de Moçambique Independente (UNAMI), José Baltazar Chagonga, então a residir no Malawi. Este, por sua vez, mantinha contactos com um padre do seminário do Zóbuè que lhe enviava estudantes/ex-seminaristas que procuravam obter bolsas de estudo. Nem todos os moçambicanos tinham o privilégio de beneficiar de bolsas através da Casa do Império. O Presidente Chagonga fez uso dos contactos que havia estabelecido com o African American Institute tendo canalizado estudantes/ex-seminarista para esta organização. Foi assim que a UNEMO, Secção dos Estados Unidos, se considerou independente da Frelimo. Poderá Sérgio Vieira explicar aos leitores a base jurídica para se exigir que os estudantes/ ex-seminaristas interrompessem os seus estudos?

3. Sem escrúpulos e sem vergonha

Sem escrúpulos e sem vergonha, Sérgio Vieira acusa os estudantes/ex-seminaristas de serem racistas. Os estudantes criticaram, sim, a influência política desproporcional dos moçambicanos, que, com o tempo, os veteranos da Frelimo consideraram moçambicanos não originários. Aliás, os estudantes/ex-seminaristas estavam a interpretar fielmente o pensamento genuíno do Dr. Eduardo Mondlane. Senão vejamos: Numa entrevista em Havana, quando perguntaram ao Dr. Mondlane se a Frelimo era racista, ele explicou. : “Na Frelimo não somos racistas. Temos brancos, mulatos, e asiáticos na nossa organização. Deixamos os brancos desempenhar quaisquer funções técnicas na Frelimo. Mas nunca vamos permitir que eles assumam responsabilidades máximas na esfera política, como por exemplo serem membros do Comité Central.” (Eduardo Mondlane,” The Real Challenge” in Instituto Cubano del Libro, Portuguese Colonies: Victory or Death (Havana: Cuba), Abril de 1971, 229.) Estou seguro que é dentro deste espírito que o Presidente Joaquim Chissano, durante o seu reinado, reduziu o poder de moçambicanos não originários no desempenho de funções de alto nível.

4- Propaganda política maldosa

Sérgio Vieira, empenhado na sua propaganda política “explica”: “mercê tanto da mentalidade anticomunista primária que se propagava nos Estados Unidos, como da infiltração de organismos como a CIA, a maior parte dos estudantes recusou regressar, para nas fileiras da FRELIMO cumprir as tarefas necessárias.” (p. 173) Sérgio Vieira não explica a razão por que os estudantes que nunca tinham sido membros da Frelimo deviam interromper os seus estudos para obedecer às ordens deste movimento. Ele menciona a “carta” que os estudantes publicaram. Porque não mencionar o título deste documento dos estudantes: “A Revolução Moçambicana Atraiçoada” ? Note-se que este documento, que Sérgio não quer que o povo moçambicano saiba o conteúdo, foi traduzido e publicado pelo professor Douglas L. Wheeler, “A Document for the History of African Nationalism. The UNEMO ‘white paper of 1968’, a Student Reply…” African Historical Studies, Vol.3, No.1 (1970), 169-180. Ressalta da leitura deste documento não existir, no seio dos estudantes moçambicanos filiados na UNEMO, Secção dos Estados Unidos, nem mentalidades primárias, nem infiltrações de espécie alguma.

5 – Sérgio Vieira de “formação” atrasada

A formação académica atrasada de Sérgio Vieira leva-o a concluir que os estudantes “decepcionados” continuaram a viver nos Estados Unidos. Se Sérgio Vieira conseguisse fazer um estudo sério do movimento mundial de emigração, teria notado que a maior parte da população americana é composta de imigrantes de todo o mundo. Muita gente que procura oportunidades e segurança na vida, quando consegue, vai para os Estados Unidos. No caso dos moçambicanos, muitos preferiram continuar nos Estados Unidos do que voltar a Moçambique onde seriam presos imediatamente e mandados para campos de “reeducação”. Pode, Sérgio Vieira, dizer-me o que aconteceu ao André Saene, João Humberto Wafinda e outros mais que regressaram a Moçambique depois da tomada do poder pela Frelimo? Note-se que foi só depois do Presidente Joaquim Chissano ter assumido o poder que muitos dos exilados moçambicanos começaram a visitar o país. Não só isso, o Presidente Chissano, contra a posição tomada por Sérgio Vieira, nomeou um dos antigos membros da UNEMO, Secção dos Estados Unidos, Senhor Marcos Namashulua, como embaixador moçambicano em Washington, D.C. de 1995 a 2001.

Afirmação irrelevante e ridícula

Sérgio Vieira acrescenta que os estudantes moçambicanos que permaneceram nos Estados Unidos formaram famílias e consideram-se moçambicanos da diáspora. Até que ponto ” esta descoberta” enaltece Sérgio como fonte primária?!...
Não se esqueça, Sérgio Vieira, que destes moçambicanos residentes nos Estados Unidos, poderão surgir “OBAMAS” !...
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(*) Professor da Universidade de Howard, Estados Unidos. Como estudante, o Professor Luís Benjamim Serapião foi sucessivamente secretário, vice-presidente e presidente da UNEMO, Secção dos Estados Unidos, de 1971 a 1974.










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