Monday, 13 July 2009

O pensamento de: Leonardo Júnior

A escolha dos guineenses :Malan Bacai Sanhá ou Mahomed Kumba Yalá?
É esta a questão a que os eleitores guineenses terão, a 26 de Julho, de dar esposta, escolhendo um deles para Presidente da República. Uma resposta que diz respeito, sobretudo, à Guiné-Bissau e aos guineenses, mas que desperta, como não poderia deixar de ser, interesse nos mais variantes quadrantes do mundo, sobretudo no vulgarmente chamado “mundo lusófono”.
Diz respeito aos guineenses porque os povos têm direito de dispor de si próprios, escolhendo, cada povo, o seu próprio destino, o que inclui o direito de escolher quem deve, em nome do povo, liderar esses mesmos destinos.
A Guiné-Bissau tem vindo a conhecer tempos de convulsão há já longos anos. Desde o golpe de Estado liderado por João Bernardo (“Nino”) Vieira, em 1980, afastando o primeiro Presidente da Guiné-Bissau independente, Luís Cabral, o país foi sendo governado com uma mão-de-ferro. “Nino” Vieira, o homem que proclamou a independência da Guiné-Bissau, em Madina de Boé, a 24 de Setembro de 1973, abriu um ciclo político violento. A “Nino” Vieira são atribuídas mortes de várias pessoas, por serem consideradas opositoras ou traidoras, incluindo pessoas que eram tidas como próximas dele.
Uma das estratégias usadas por “Nino” Vieira para se manter no poder foi criar alianças com algumas chefias militares, promovendo uns e despromovendo outros. O Exército guineense, com tantos ou mais oficiais do que soldados, acabou por ganhar um peso excessivo na condução da vida do país. E não tardou que os militares passassem a ser os protagonistas principais da vida política guineense.
Apesar de, a exemplo do que tem vindo a acontecer em muitos países africanos, a Guiné-Bissau ter enveredado pelo caminho da democracia multipartidária, o país não conheceu, por isso, significativa estabilidade.
Foi assim que, em 1994, o país viveu as primeiras eleições legislativas e residenciais multipartidárias. A imagem de “Nino” Vieira, com um colete à prova de
balas debaixo da balalaica, a votar, deixava tudo claro quanto à situação do país. As eleições decorreram sob um clima de medo. Medo de uma eventual rebelião militar, que terá sido travada pelas diplomacias norteamericana e russa. “Nino” Vieira foi declarado vencedor dessas eleições, embora para muitos guineenses o verdadeiro vencedor tivesse sido Kumba Yalá, da etnia maioritária do país – os balantas.
Em 1998, na sequência de um escândalo de tráfico de armas para a região de Casamança (no vizinho Senegal, onde há uma rebelião, ora latente, ora activa, para a reintegração da região na Guiné-Bissau), eclodiu uma guerra civil. Na origem do conflito terá estado, segundo muitas vozes, uma ordem de “Nino” Vieira para eliminar Ansumane Mané, um militar de origem gabonesa que até então fora sempre fiel a “Nino”.
Informado sobre a intentona, Ansumane Mané comandou uma revolta que terminou com a queda de “Nino” Vieira, sendo forçado a um exílio político, durante seis anos, em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Derrubado “Nino” Vieira, a Guiné-Bissau escolheu aquele que parecia ser a maior esperança do povo para tirar o país da crise política e económica em que se encontrava mergulhado – Kumba Yalá, que derrotou, em 2000, Malan Bacai Sanhá. Em apenas três anos, o homem do barrete vermelho, símbolo de quem passou pelo fanado (rito de iniciação entre os balantas), conseguiu decepcionar todos os seus apoiantes e o mundo. Viu o seu mandato interrompido, em 2003, por um golpe de Estado sem sangue. Um golpe de Estado que mereceu a compreensão de todo o mundo.
Entretanto, “Nino” Vieira, com muitas cumplicidades internacionais e internas, ia preparando o seu regresso a Guiné-Bissau. E acabou por regressar. Foi reconduzido
à Presidência, em 2005. Era o mesmo “Nino” Vieira, nos métodos e no estilo, que governara o país de 1980 a 1998. Teve um fim trágico, fazendo jus à expressão
“quem com ferro mata, com ferro morre”.
Agora os guineenses voltam a ter que escolher entre Malan Bacai Sanhá e Kumba Ialá, entretanto convertido ao islamismo. Pelo caminho deixaram Henrique Rosas, talvez o mais sério e bem talhado para Presidente da República. O pecado, verdade seja dita, é ser mestiço. E Kumba Yalá pode ser novamente Presidente da Guiné-Bissau, se beneficiar do voto étnico. Os militares continuam com muito poder e a imiscuir-se no poder político. E a Guiné-Bissau pode ter ainda que esperar por melhores dias...

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