Friday, 11 June 2010

Devolução de ossadas de Uria Simango e outros às famílias é assunto do Governo

-Sérgio Vieira, quando instando a responder pelo Canalmoz e Canal de Moçambique sobre o “dossier Nhatchingweya”, dos presos políticos fuzilados pela Frelimo, à margem do lançamento, na Beira, do seu livro “Participei, por isso testemunho”
O coronel na reserva e presidente do Conselho de Administração do Gabinete do Plano do Zambeze (GPZ) Sérgio Vieria lançou na sexta-feira transacta, na Beira, num evento bastante concorrido pelo público, o seu livro “Participei, por isso testemunho” (Editora Ndjira). Sérgio Vieira foi um homem de mão de Samora Machel, o primeiro presidente de Moçambique, tendo desempenhado várias funções como ministro da segurança, governador do Banco de Moçambique, governador de Niassa. Entrevistá-mo-lo a respeito deste livro, e não só, para entendermos das razões que o levaram a preterir, neste livro, da abordagem do “dossier Nhatchingweya”. Segundo a ordem de acção número 5/80, com que a Frelimo fecha o referido dossier, ainda hoje mantido no segredo dos deuses, Vieira encabeçou o comité que preparou o dossier declarando supostamente a comple­ta história criminal daqueles indivíduos, bem como suas confissões aos ele­mentos da DD/SI que os interrogaram, declarações de testemunhas, au­tos do processo e sentença.

Numa conversa telefónica, Sérgio Vieira mostrou-se ser o mesmo: directo, de convicções próprias, e também, cordial. Perguntando sobre as razões porque não abordou o “dossier Nhatchingweya” afirmou que “sobre o assunto dos traidores da pátria já foi tudo dito. Não tenho nada a acrescentar”. Questionado sobre os motivos que levam a Frelimo e o Governo a manterem escondidos as ossadas dos presos políticos fuzilados em M’telela, afirmou que nada tem a falar, tendo nos aconselhado a remeter a pergunta às entidades competentes: “Pergunte ao Governo. Eu sou cidadao comum, como qualquer outro”.
Pergunta (P): Dr. Sérgio Vieira, a primeira edição do livro “Participei, por isso testemunho” esgotou. Eram 3000 exemplares. Prevê alguma tradução?
Sérgio Vieria (SV): A Editora Ndjira está a preparar uma segunda edição. Quanto a tradução, é matéria dos editores e creio que estão a tratar do assunto.
P: Como foi a recepção na Beira?
SV: A sala, que tem capacidade para 150 pessoas, estava cheia. Muita cheia. Hávia muita gente de pé. Disseram-me que na Beira o usual são trinta ou quarenta pessoas. Parece-me que com isto tudo está dito sobre o acolhimento.
P: Tem em vista a escrita de uma outra obra?
SV: A seu tempo. Não cantar antes de pôr ovo.
P: Tem previsto lançamento deste livro noutras provincias?
SV: Em Tete já foi feito o lançamento. Outros lançamentos são da inciativa da Editora. Estes pormenores são da competência da editora. Quando o autor entrega a obra à editora, esta assume as suas responsabilidades.
P: Como se sente como escritor e politico?
SV: Sou militante da causa nacional. Estou na investigação cientifica, escrita literária, estive na governação. Tudo isto faz parte de mim, isto faz parte do ser humano, não existo e ninguém existe com compartimentos estanques dentro de si.
P: tendo em conta o seu percurso, que experiência de vida pretende deixar para as novas gerações?
SV: A minha geração teve o duplo desafio de libertar pátria, criar o Estado e defender o país atacado pelo racismo. O desafio de hoje é luta contra a pobrteza. Desafio da geração actual. Não se trata de libertar o país porque esta libertado. Agora o desafio é luta contra a pobreza.
P: Está-se a falar bastante de transmissão de testemunho a outras gerações. Será que a geração 25 de setembro está-se a reformar?
SV: Se atentar à necrologia há-de ver que estamos a desparacer. Não podemos descutir se estamos ou não a reformar. A nossa geração 25 de Setembro tem elementos com idades de na casa dos 70 até 80.
P: Escreveu um livro de poesia “Também memória do povo”. Este segundo livro são novas memórias?
SV: Neste livro centro sobre cerca de 50 anos da minha participação na vida activa do país. É diferente de poesia.
P: Sentiu-se acarinhado na Beira, por onde andou?
SV: Claro. Vou muitas vezes à Beira. Sou sempre bem tratado.
P: Li o seu livro. A grande expectativa é que iria falar sobre o caso dos prisioneiros políticos fuzilados pela Frelimo, assunto esse que vem sendo debatido desde os anos 90, mas na verdade nada refere. Pensa escrever outro livro abordando sobre o destino do grupo dos prisioneiros políticos, como Uria simango?
SV: Sobre o assunto dos traidores da pátria já foi tudo dito. O Presidente Chissano fez declaração pública sobre o assunto, o Ministro Veloso que dirigiu a segurança fez declaração pública sobre o assunto, o Presidente Guebuza também. Não tenho nada a acrescentar. Em todos os contextos de história traidor é sempre traidor.Os conjurados portugueses de 1640 mataram traidores, depois da libertação da França da ocupação nazi, a França executou o Primeiro-Ministro colaboracionista Pierre Laval, o poeta Robert Brasillach, o Marechal Pétain viu a pena comutada para prisão perpétua atendendo ao seu papel durante a I Guerra Mundial. Em Moçambique os traidores cometeram e apoiaram crimes de sangue, ataques contra a população, foram pedir à Rodésia e África do Sul para invadirem Moçambique. Em todos os contextos históricos traidor é traidor.
P: Quando é que irão devolver as ossadas às familias dos presos políticos, como Uria Simango, Lázaro Nkavandame, Júlio Razão, Nihia, Mateus Gwengere, Joana Simeão, Paulo Gumane, entre outros?
SV: Não tenho nada a falar. Pergunta às entidades competentes. Pergunte ao Governo. Eu sou cidadao comum, como qualquer outro.
P: Como é que sente depois de escrever este volumoso livro (pouco mais de 750 páginas)?
SV: O que tinha a escrever, escrevi.
CANAL DE MOÇAMBIQUE – 09.06.2010

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