Tuesday, 10 November 2009

A Opinião de António de Almeida

Não tenho título para dar a este meu triste texto, porque as lágrimas choradas e as lamentações já são suficientes para cobrir o título em falta.

Caro leitor, se quiseres desfrutar o título deste artigo, chore comigo, lamenta comigo, porque parece que é a única forma que o zambeziano tem de se manifestar. Caso contrario, somos opositores e até conotados com algumas forças politicas que nem se quer temos nada a ver com elas. Mas esses senhores não percebem e estão cegos de ignorância.

Diz um ditado popular que onde lutam dois elefantes, quem sofre é o capim; mas só que na minha Zambézia, com a luta de duas forças frustradas, quem sofre é o meu povo.

Mas não disso que vou aqui relatar.

A imagem ai a cima, ilustra a pobreza absoluta do povo de Macuse no distrito de Namacurra.

Mostra a pobreza absoluta por um simples caso.

Esse povo, o povo de Macuse e de todas outras regiões onde habitavam o palmar, usavam o palmar na totalidade, como fonte de rendimento e conseguiam de certa forma manter as suas economias dentro de casa ou em baixo da árvore.

Se é que estou a mentir, perguntem os vários doutores, mestres, licenciados bacharéis de Inhassunge, Namacurra, Maganja da costa, Nicoadala e outros vários sítios, se para chegar onde chegaram, não carregaram sacos enormes de cocos para vende para poder conseguir ter um caderno, um lápis, uma esferográfica e até roupa para poder ir a escola.

Não digo isto em forma de abuso, pelo contrário, tenho muito orgulho em falar disto porque isso prova que os intelectuais da minha nobre terra não precisaram de matar a ninguém para chegar ao topo. Mais chegaram ao topo, graças ao sacrifício e a venda de produtos locais como o coco por exemplo, que hoje já nem se quer existe. Que pena meu Deus!

Sei que muitos dos meus conterrâneos sentem por dentro o que eu sinto e sofrem como eu sofro. Mas eu não fico calado e pergunto, onde foi o palmar da minha terra que já foram fontes de informação de muitos poetas? Que já serviram de esconderijo de muitos namoricos?

Quem me responde?

Ninguém só apenas os moribundos palmares que vão minguando ao estilo do amarelecimento letal do coqueiro, me dizem no seu silêncio que estão morrendo por culpa sei lá de quem.

Será que ninguém sabe nada mesmo?

E os coqueiros híbridos o que aconteceu com eles? Será que não é pelos produtos químicos que usavam na produção do coqueiro híbrido que apareceu o tal de amarelecimento letal?

Algo algum!

Com a queda da Boror em Macuse, vemos o local cada vez mais empobrecido e alguns senhores ostentando grandes riquezas, senhores esses que eram bosses da extinta boror.

As casas lá em Macuse, hoje pertencem a um grupo de senhores que abrem negócios em nome de suas mulheres em detrimento dos antigos trabalhadores que nem se quer viram indemnização.

Hoje a população de Macuse sofre de fome, pobreza, sida, tuberculose e muitas outras doenças, sem poder ter pernas para andar, porque o palmar que era a sua base de sustento foi completamente desmoronado, que triste!

Se no antigo testamento Moisés levou o povo a terra prometida e mais tarde os maus tratos continuaram, Jesus apareceu para resgatar o bom nome divino, mas mesmo assim deixaram o povo entregue a sua própria sorte.

Assim acontece no meu Moçambique.

Uns tiraram o povo das mãos do colono, dando-lhes terra, mas depois humilhou o povo; e o outro que trouxe a liberdade está sendo crucificado pelo povo que ele mesmo libertou, tal como aconteceu a Jesus.

Assim pode-se dizer que o meu povo está bem?

Para quem diz estas asneiras, precisa de sair do AC para olhar de perto o sofrimento do povo e deixarem de enganar os doadores.

Para os doadores, por favor, não se deixem enganar pelos tubarões porque no campo, a realidade é outra, o povo sofre e está morrendo. Eu vivi isso em Macuse.

Será que para o povo de Macuse voltar a viver, precisamos de ressuscitar a boror e a companhia da Zambézia?

Pensem bem.

Eu volto brevemente.

Ao meu povo, coragem.

1 comment:

Reinaldo said...

Gostei do artigo. Fez-me ter saudades da minha terra, Inhassunge.
Sou, como muitos do meu tempo, um dos que teve que levar e vender côcos, bolinhos, patanícua, para poder estudar. Os bancos das minhas escolas, tanto em Mucupia como em Minjalene, eram simples troncos de coqueiros. A cobertura era feita de “nhocas”. Aos sábados devíamos ir a escola ajudar a colher côcos num dos imensos palmar que a escola tinha em redor.
Graças a essa fonte de riqueza, o coqueiro, hoje estou a fazer um Ph.D em Economic Development Policy and Management, no distante Japão.
É muita pena mesmo ver aquela paisagem de coqueiros que outrora foi fonte de riqueza, de orgulho e de inspiração em toda a costa Zambeziana, já practicamente irreconhecível. Sei que o MCA (Millennium Challenge Account) tinha projectos nesse sentido. O que é feito?
Obrigado A. Almeida pelo seu artigo.
Reinaldo Ernesto João Mendiate