Friday, 2 October 2009

A Opiniao de António de Almeida, Cadango Dallas e Henrique Silva

Que Saudades do Cine Teatro Águia

Daquele tempo sinto saudades do famoso Cine Teatro Aguia que era o local de um ambiente salutar de diversões da mocidade, em que eu e os meus amigos de infancia, porém hoje já adultos e com as respectivas mulheres, divertíamo-nos nas tardes de matiné em telas gigantes.
Entretanto, a mocidade actual sente-se privada desse privilégio em detrimento do cinema que hoje é um covil de ratos, manguços, cobras, caracóis, morcegos e aranhas bem como as teias que se transformaram na grande tela assistida pelos ancestrais dos actuais habitantes dessa muralha. Mas naquele tempo, não eram mulheres que tínhamos, eram namoradinhas e por todos os bairros da nossa cidade de Quelimane; nós sentíamos prazer de vê-las brigar, assim, sim, nós éramos famosos.
Mas tudo isso já não existe! Os meus amigos dispersaram-se, as namoradinhas hoje umas são mães casadas e outras mulheres desamparadas e o cine águia parece um aborto perdido no tempo.
Aquele nosso cine hoje já não tem o chapéu que o protege da chuva e do sol. O nosso águia já não tem de fora as pipocas e o amendoim torrado a venda para disfarçar o cansaço de estar sentado em cadeiras que hoje transformaram-se em esconderijos dos bichos acima citados.
O desmoronar daquele edifício deve-se a falta de uma política económica e empresarial do nosso governo doentio, que não consegue enxergar que o águia está numa zona privilegiada e já foi o cartão-de-visita da nossa cidade.
Aquele monumento que vemos só a parte externa e que a Mcel estampou um enorme poster na parte frontal, está oco por dentro. Um velho ditado diz: “ O homem desorganizado só se lembra de lavar a cara, mas se esquece de lavar o rabo.”
Certo dia, alguém me disse: “a merda é a mesma o que mudam são as moscas,” é assim a formação do nosso governo; deste modo dá para concluir que: mosca sai, mosca entra e a merda continua.
Se a elite actualmente no poder se preocupasse com o desenvolvimento desta nação, com particular realce para a modesta cidade de Quelimane, não se importaria em injectar um capital com vista a restruturar aquele que é um dos maiores monumentos da cidade.
Actualmente fala-se muito da sida. Acusam os jovens de comportamentos poucos saudáveis e de serem o expoente máximo da transmissão do HIV.
Hora veja: como é que os jovens não vão abusar o álcool, sexo, a droga, etc..., se não existem locais onde esses mesmos jovens possam se divertir e os únicos que existem são nocturnos onde muito se fomenta todas as práticas ilícitas, sob o olhar impávido e sereno dos pacóvios “cinzentinhos”, que se deixam corromper por um maço de cigarros?.
Naquele tempo sim, não haviam brincadeiras de mau gosto, eram namoricos de simples beijinhos e de ofertas de caramelos dentro do cine teatro águia. Mas hoje são fornicadas nos muros, nas casas de banho das discotecas, tascas e barracas e ainda por cima instaladas por um concelho municipal composto de parasitas gigantes com dentes por todos os cantos, que nem se quer deixam escapar um quinhão que seria para os outros.
Para agravar ainda mais a estética daquele local em plena Av. Eduardo Mondlane, o jardim infantil foi vendido e transformado num armazém de arquitectura medíocre para venda de bebidas alcoólicas e desamparando as crianças de Quelimane que já nem sequer sabem o que é um parque infantil.
A questão que se coloca é:
Será preciso que Quelimane volte ao estatuto de distrito para ser pólo de desenvolvimento e beneficiar dos tão propalados sete milhões para mudar a cara?

5 comments:

Anonymous said...

Sou da Zambézia, melhor, sou Zambeziano e da última vez que visitei Quelimane, quase que deitei lágrimas. Nao imaginei que aquela cidade estivesse tão destruida.
Eu acho que tudo deve ter sido uma cilada, um plano bem feito, para nos retirar o símbolo do nosso orgulho, Quelimane. E julgo que mais outros símbolos como o chá do Gurué, e a destruicao do maior palmar do mundo (costa Zambeziana) fazem parte dessa estratégia para nos eliminar psicologicamente. Esses maquiaveis tudo fizeram para desgraçar os pontos mais emblemáticos do nosso orgulho, atingindo e estrangulando os nossos cartoes-postal.
Hoje as pessoas de fora já nos gozam. Já não podemos falar, porque Quelimane é a pior cidade capital provincial do pais, em termos de conservação das infra-estruturas, planeamento físico e degradação das ruas e avenidas.
Mas um dia nós, Zambezianos, havemos de recuperar o orgulho que pensam que nos tiraram, algumas vezes em conluio com filhos da Zambézia.
Cine-Aguia vai server de inspiração para essa luta.
Um abraco a todos os Zambezianos.

H.Lopes said...

Tirei lagrimas ao ler este artigo, porque me fez reviver os tempos bons lá idos, um tempo que está ficar velhinho precocemente, tal como está a ficar a propria cidade de Quelimane.

E eu que era vizinho do cine águia que para assistir um filme tinha duas opções: ou bater um bom papo com o velho Santinho, especialista em cafés do bar cine águia e entrava pela porta do bar, ou pulava o muro de trás com a minha malta.

O tempo se foi com os bons filmes indianos que rolaram nas telas do cine águia. Em Junho do ano passado quando por lá passei me deu pena ver as ruinas do cine águia. Me deu mais pena os buracões das estradas da minha bela cidade.

Fiquei com mais raiva quando em plena campanha das eleições autarquicas, enganaram o meu povo dizendo que já havia dinheiro para a reabilitação das estradas, e pelos relatos que tenho vindo a acompanhar nenhum centavo chegou a cidade de quelimane para tapar os buracões que estam intactos e talvez aumentaram de diámetro.

E o meu povo lá se vai de novo ser enganado com promessas de um futuro melhor, melhor porque no fim dos próximos cinco anos, o cine águia será materia prima para os historiadores.

Nero Kalashnikov said...

Meus sentimentos por todas as lagrimas. Tudo que causa lagrimas de dor deve ser compensado com accoes praticas que substituam a dor por alegria. Nao se prendam ao problema. Abracem solucoes.
Um abraco a todos voces e aos mocambicanos do Rovuma ao Maputo

Craveira said...

Zambezianos,
Concordo com Nero. Vamos acordar e entrar em accao. Muitos, podemos fazer a diferenca. Ha muita coisa que devemos olhar com preocupacao, em adiccao aos problemas ja apontados antes pelo comentador "Anonimo", como por exemplo debatermos o problema do saque das florestas zambezianas.
Cine-Aguia, Cine Chuabo, Cine Estudio, em Quelimane, e muitos outros cines e locais historicos em outras partes da Zambezia, precisam de accoes, muito mais do que palavras.
Ja vimos k com o poder politico, nada vai acontecer. A nossa Primeira-Ministra passa mais tempo la, mas aquilo tudo nao lhe comove, porque nao e Zambeziana. Ela so quer os nossos "votinhos" para continuar a sua vida folgada e a dos seus pares.
Zambezia esta a espera dos Zambezianos, e nao de "estrangeiros".
Vamos a accao. Eu ja iniciei.

L. said...

Cadango Dallas é aquele colega, às da bola, que frequentou a Escola Secundária situada na Marginal e que de noite treinava futebol no Sporting de Quelimane?
Pois, o tema agora é Quelimane. Nasci nesta cidade, na Avenida de Lisboa, há mais de quarenta anos e… etc, é conversa, é tristeza, é saudade e tudo isso só nos amolece e só nos paralisa o pensamento. Na minha meninice, vivi em Quelimane até aos 16 anos, as tardes de domingo eram passadas no Cinema Águia, Cine Estúdio e também no Cine Chuabo, especializado na altura em filmes de cowboys, bala disparada na tela e vozes dizendo, oné, oné. Eu era partes meias a ver cinema e com o ouvido colado num rádio a ouvir um tal relato de futebol do campeonato português, muito à espera de um bom resultado azul-e-branco e depois a indispensável passeata pela marginal quelimanense ao princípio da noite, já com os familiares directos.
O que ouvimos e lemos por aqui (Lisboa) é que há grande abertura financeira de muitos países europeus que estão a perdoar dívidas antigas e ou que anunciam grandes fundos de investimento para Moçambique. A questão é naturalmente saber se essa abertura financeira é retórica política na origem ou se esses fundos são realmente atribuídos e depois desviados para outros fins. Estes países têm superior interesse em matéria-prima e turismo e nisso a Zambézia certamente saberá estar à altura.
Tenho pena que a promiscuidade esteja a imperar na cidade e quanto a isso temos que nos lembrar antes de mais, que ela é resultado de dificuldades do povo e só mesmo a outra via consegue sarar estas feridas e para a outra via resultar é necessário sermos empreendedores, apelar à iniciativa privada se o estado não está capaz de promover trabalho e desenvolvimento. Pensamento positivo. E em termos de propriedade, em que mãos param os cinemas de Quelimane? Meu nome é Jorge Humberto Leal, jh812@portugalmail.com à disposição de quem quiser escrever e contar novidades do Chuabo.