Monday, 13 July 2009

A Opiniao de Albino Moisés

SÓ O QUE ACONTECEU - A foto do falecido

O tio Rungo não tirava fotografias fazia tempo. Diga-se, há anos. Tinha aversão à lente de uma câmara. Detestava o som do “click”, acompanhado daquela “fleshada” a inundar o rosto. E ele assumia publicamente esse desconforto. E quase sempre lutava com os fotógrafos na hora de lhe assediarem um sorriso nas suas objectivas.

A última vez que entrara num estúdio para tirar fotos tipo-passe foi para tratar o BI. Aquelas que sobraram serviram para prorrogar o passaporte que já tinha validade expirado. Nessa altura ainda não havia essa coisa de “actualização e não actualização” de CNE/STAE, que na prática, o acaba “facilitando e garantindo” para muitos uma foto actual.

Naquele dia, finalmente o homem resolvera tirar uma foto! Actual. A foto não seria para o BI, nem para o Cartão de Trabalho, e muito menos para o Passaporte. Ele tinha todos os “ducus em dia”.

E a referida foto não seria tirada numa casa de lugar-comum, e muito menos por aprendizes que ainda precisam de comer muita farinha. Tio Rungo procurava o ponto mais alto da fotografia da cidade. Nesse dia, exigia um profissional à altura do seu desejo: uma boa foto. Tirada por um individuo calejado.

Depois de gastar muitos litros de gasolina na sua “Honda-50” a contornar artérias, encontrou, finalmente um letreiro que anunciava: “foto em um minuto. Boa qualidade”. Era a casa prometida! O sítio tinha classificação como sendo de primeira.

Entrou. Trazia um casaco de luxo. A gravata harmonizava com a camisa de colarinho e punhos vistosos. Não era frequente vê-lo assim. Na lapela do seu “blazer” colocara romanticamente um cravo vermelho. Estava com ar de um noivo. Ou de um galã de Hollywood (muitos vão me perguntar por que não comparo com um actor de cinema moçambicano... vão me dizer aquelas coisas de sempre, que não tenho sentido patriótico ou que fui fintado pela auto-estima etc. etc). Voltando ao tio Rungo: realmente o homem estava “chic a doer”. Parecia um daqueles tipos que voltara a apaixonar-se. Ou ainda que procurava impressionar ou “arrumar” uma dessas “catorzinhas” que ficam à espera de um “D. Juan”, sempre com chiclete na boca, perfume de Paris e palavras doces (tal como canta Romualdo, músico beirense).

Ora, o nosso Tio Rungo, estava visivelmente livre de espírito. Pareceria não ser o mesmo que odiava uma máquina fotográfica. Tinha vencido a inibição e o desconforto de se sentar em frente de uma câmera em riste. Aquela era a nova faceta de Tio Rungo? De repente, estar à-vontade com o que sempre detestou?

Por conseguinte, resolvera transformar uma simples sessão de fotografia num momento de grande “glamour” e requinte. Vestia um rosto simpático e de muita graça. Não estava com aquela seriedade que o caracterizava em situações análogas.

Na hora “H”, quando o fotógrafo o convidou para se “arrumar”, Rungo fez questão de lhe mostrar que estava tão solto e descontraído. Estava com a alma de bem com a vida. Na sua estatística em fotografia, aquele era seguramente o único dia em que não trazia a cara trágica e severa.

Quando começou com a sua “Nikon” começou a contagem, “atenção, 1, 2, 3!”, Rungo, colocou no rosto um sorriso sedutor e não esquivou do flash. Levantou-se da cadeira, sem ter transpirado, como dantes, quando acusava o aquecimento “maldito” dos holofotes.

Passado um minuto foi logo chamado e entregue a sua foto. Realmente aquela casa não fazia publicidade enganosa. Um minuto é mesmo um minuto.

Retirou as fotos do envelope e viu-as, uma a uma. Gostou do serviço. A foto transmitia um sorriso enternecido e enigmático. Parecia aquele sorriso misterioso de Mona Lisa, pintado pelo artista italiano Leonardo da Vinci. Na foto, Rungo exibia um sorriso sedutor e algo inexplicável. Era a melhor foto tirada em toda a sua vida.

Antes de chegar a casa, ele tinha passado por vários pontos com, com uma ligeira demora no “guichet” de um jornal da cidade de Maputo.

O dia caía. E sem suscitar desconfiança de ninguém localizou um ponto da garagem e colocou uma corda ao pescoço. Instantes depois o homenzinho jazia baloiçado, ao sabor do vento. Um sono trágico.

Ninguém esteve de acordo com tamanha decisão! E sobretudo, não houve quem pressentisse que tal podia acontecer. Todos se perguntavam com estupefacção o porquê daquela decisão!

A família ficou abalada e a vizinhança foi aos aposentos do finado (que apesar de todas as “makas e ximokos”, incluindo de atirar pedras para o telhado do vizinho, naquele dia, de forma natural, era imperioso fazer tréguas e pazes, porque vizinho a gente não escolhe, calha-nos como lotaria). Foram os vizinhos que trataram de informar à família mais próxima sobre a ocorrência, sem detalhes.

À noitinha, foi constituída uma comissão que se dirigiu ao jornal. Iam anunciar a morte de Rungo. Levavam o BI do falecido por causa da fotografia, apesar de antiga, tirada há mais de dez anos.

Quando acabaram de preencher o impresso, na hora de entregar a foto do BI, o funcionário devolveu, a perguntando se não gostariam de trocar por uma outra. Responderam que aquela era a única. Não tinham alternativas.

Só que o funcionário, disse que podiam usar uma foto actual trazida por um eventual familiar ou amigo do malogrado.

O funcionário deu meia volta e regressou com uma foto tipo-passe nas mãos. O fotografado sorria levemente. Vestia um casaco “chic” e mantinha uma das orelhas “escondidas” tal como mandam as normas dos Registos e Notariado.

Foi com surpresa que a comissão constatou que aquele ali era o Rungo! E a foto era realmente actual. Incrédulos, perguntaram-se quem poderia ter vindo anunciar no jornal, em tão pouco tempo. Não encontraram respostas. Viraram o verso da foto e foi lá que encontraram a solução do problema. A data era daquele mesmo dia. E quando pediram o impresso do anúncio de quem tinha passado por ali, verificaram que a caligrafia era de Tio Rungo. Ele próprio. Ou seja, o morto tinha vindo pessoalmente, colocar o seu próprio anúncio, e curiosamente, já indicava a hora e o local (cemitério familiar) e os nomes dos familiares presentes e ausentes.

Ele tinha gozado a liberdade de ser ele próprio a fazer o anúncio da sua própria morte. Eventualmente não queria incomodar as pessoas e do seu bolso pagou um anúncio especial, (tamanho maior). E lá estava o seu rosto na primeira fila: FALECEU!

No dia do seu funeral o fotógrafo que lhe captou a última foto lá estava, levado pela notícia insólita que depois correu pela cidade. Toda a conversa no cemitério e não só era atravessada pela história da foto de sorriso enigmático e se elogiava o seu autor.

Albino Moisés - moisesalbino@yahoo.com.br

Maputo, Segunda-Feira, 13 de Julho de 2009. Notícias

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