Thursday, 9 September 2010

A Opinião de Maria Ângela Penicela Nhambiu Kane

Onde estavam os intelectuais orgânicos?

SR. DIRECTOR!

No dia 1 de Setembro de 2010, Maputo, a cidade das acácias, despertou como o faz todos os dias úteis da semana: cheia de vigor, correndo, sem mãos a medir para fazer face às peripécias do dia laboral no trabalho formal e informal, nas lides domésticas e na labuta estudantil.

Maputo, Quinta-Feira, 9 de Setembro de 2010:: Notícias
Todos estávamos cientes de que teríamos uma quarta-feira igual às de sempre, com a rotina da corrida iniciada antes do nascer do sol e concluída noite dentro, quando finalmente se regressa fatigado ao calor do lar, buscando renovar as energias para enfrentar mais uma jornada.

Disse que todos estávamos cientes de que teríamos uma quarta-feira igual às de sempre, mas não é verdade! Alguns de nós (e muitos, afinal!) acordaram nessa quarta-feira com ideias funestas, lúgubres, arquitectadas sabe-se lá como e quando, mas que resvalaram em cenários de guerra fria e inexorável contra alvos inocentes, indefesos, perplexos...

Nessa triste quarta-feira, tal como muitos outros compatriotas habitantes da nossa cidade capital, preparava-me para percorrer a habitual EN4, a caminho da vizinha cidade da Matola, onde tenho o meu posto de trabalho. Ao ligar a STV comecei a ver cenas hediondas perpetradas por jovens, a dita “seiva da nação”, nalgumas das grandes vias da nossa urbe, nomeadamente a Av. Acordos de Lusaka, a Av. de Moçambique, a própria EN4... Fiquei chocada!

Pedras voavam implacáveis sobre os veículos (incluindo os da PRM), cujos condutores viam-se e desejavam-se para, a toda a velocidade, buscarem porto seguro mais adiante. Primeiro, incrédula, não queria aceitar o que via, mas fui caindo em mim e comecei a experimentar um desgosto profundo, uma dor indescritível, uma premente e enjoativa revolta!

A sensação de mal-estar que experimentei foi crescendo ao longo do tempo, cada vez que as cenas dantescas se iam multiplicando em número e em brutalidade. Cenas indescritíveis, daquelas que exigem que se veja para crer!

Desde pessoas mortas e feridas a viaturas queimadas; lojas e contentores de produtos alimentares saqueados; bancos vandalizados, passando por barricadas de todo o tipo nas estradas e avenidas; até aos pneus-fogueira dilacerando o alcatrão das vias, que tanto custam ao erário público e nos protegem das famosas e já habituais covas e crateras municipais...

A minha dor, raiva e desgosto agravavam-se pelo facto consumado e brutal que me era dado a observar: os actos cruéis eram cometidos pela dita “seiva da nação”, hoje “geração da viragem”, jovens cheios de vigor, mas também de maldade pura!

No conjunto das propaladas causas para a tamanha brutalidade que emergiu, sobejamente discutidas e escalpelizadas por quem sabe analisar a política e a sociedade, eu gostaria de introduzir mais alguns aspectos: onde andam os valores chamados civismo, respeito, tolerância, moral? Desapareceram totalmente?!

Será que esta juventude não tem ou nunca teve progenitores, pai e mãe? Será que se trata de um conjunto de pessoas que foram bebés-proveta, tendo sido abandonados à nascença? Será que nunca receberam a educação básica que é um direito que assiste a qualquer pessoa na primeira infância, como dizer “obrigado”, “bom/dia”, “boa/tarde”, “boa/noite”, “por favor”, “com licença”, “desculpe-me”... Tudo leva a concluir que não, pois os próprios progenitores ou encarregados de educação também não têm meias medidas para exprimir o que lhes vai na alma, de boa forma e com o devido respeito! Os canais televisivos não me deixam mentir! Como se pode dialogar assim?

Por essas razões, pergunto-me: será que estas pessoas não possuem intelectuais orgânicos?

Segundo António Gramsci (Munslow, 1983: 138), todas as classes sociais criam organicamente, no seu próprio seio, um estrato de intelectuais que lhes dá homogeneidade e uma consciência sobre a sua função em termos económicos, sociais e políticos, os chamados intelectuais orgânicos. Este tipo de intelectuais diferencia-se dos intelectuais tradicionais (sacerdotes, profissionais, académicos e outros). Os intelectuais orgânicos não se distinguem pela sua profissão, que pode não ser importante a nível da sua classe, mas antes pela função que assumem na direcção da consciência da classe a que pertencem.

Onde estavam os intelectuais orgânicos desses jovens e adultos que se engajaram furiosamente em cenas macabras, procurando exprimir as dores que os assolam, misturadas com as pérfidas vontades de muitos oportunistas que encontraram campo fértil para os seus actos vis?

Onde estavam aqueles que, com a mestria de verdadeiros líderes que são, poderiam ter abrandado, ou reprimido até, as vontades destrutivas da massa juvenil, procurando fazer-lhes entender, e aos seus mais velhos, o difícil de entender, como o porquê do preço que sobe contra um salário que não lhe faz face? Onde estavam aqueles que poderiam ter tornado esta difícil lição de engenharia em algo mais inteligível e baseado no diálogo, antecipando-se, assim, às ideias inflamadas de animosidade e aos bárbaros actos subsequentes?

Será que os intelectuais orgânicos deixaram de existir nas comunidades de onde saem os jovens da “viragem”, ou existindo, ainda, (e acho que sim), por que razão não fazem o seu trabalho junto da classe a que pertencem?

Ou será que na sociedade moçambicana não existem mesmo classes?

1 comment:

Benedita said...

Quer-me parecer que os intelectuaus orgânicos já não existem. De outra forma como é que se explicaria a existência de empresas que lucram vendendo cursos caros de "atendimento ao público" nos quais se ensina aquilo que se devia apreender em casa" com os intelectuais orgânicos?