Wednesday, 15 September 2010

4 agentes da PRM desabafam sobre os acontecimentos de 1 e 2 de Setembro 2010

Num depoimento emocionante, quatro agentes revelam com exclusividade ao @Verdade o enredo do 1 e 2 de Setembro, as ameaças aos jornalistas, as balas perdidas, as dificuldades da profissão, o “negócio” da escolta e a dor de disparar no rosto de um problema que também é o deles: as manifestações contra o custo de vida…

João Sem Vontade*, com 7 anos na Polícia, foi um dos agentes da lei e ordem que reprimiu as manifestações populares de 1 de Setembro contra o custo de vida, mas nem por isso deixa de ser vítima da alta de preços de bens de primeira necessidade. “Um polícia recebe 3500 meticais e um saco de arroz de 50 quilos custa 1550”, afirma
cabisbaixo. Obede Carlos*, funcionário da Polícia há dez anos, não fala do preço do arroz, mas diz que cortou, por conta do custo de vida, o sabão líquido das suas despesas mensais. O frigorífico, por exemplo, “já não funciona 24 horas porque a energia também subiu”.
Jacinto Jacinto*, com 13 anos na corporação, não sabe o que é comprar um saco de arroz de 50 quilos há cinco anos. “Compro o saco de 25 quilos porque se optar pelo de 50 fico sem dinheiro para o carvão, o açúcar e para o transporte”, diz.

Silvério Silvério*, há 16 anos na Polícia, concorda com Jacinto, mas acrescenta que “por este andar, em Dezembro trocaremos o saco de 25 quilos pelo de 10. O arroz sobe todos os dias”, desabafa.

Balas perdidas

“Aquelas pessoas manifestaram-se por nós (polícias) já que não podíamos estar no meio delas”, garante. A seguir mostra que a AKM é uma arma muito traiçoeira. “Um tiro para o ar pode, no caso de encontrar uma parede ou um objecto sólido, ganhar outra direcção e atingir uma pessoa mortalmente”, justifica João, numa alusão ao facto de, na sequência dos protestos, a opinião pública ter acusado, na generalidade, os polícias de ter atirado para matar. “O que não quer dizer que os polícias tenham atirado em exclusivo para o ar. Houve colegas que dispararam para a população e até para pessoas indefesas”, comenta Silvério.

Na verdade, diz Jacinto Jacinto*, que trabalhou num dos pontos onde a manifestação popular foi mais violenta, Xiquelene, “a Polícia não tinha como conter os ânimos, os manifestantes atiraram pedras. O carro da terceira esquadra ficou sem o vidro traseiro. Alguns comandantes ficaram feridos. Não é verdade que usamos apenas balas de borracha. Em Xiquelene, por exemplo, o carro da Polícia não voltou por causa dos
manifestantes. Voltou porque já não tinha balas, tanto reais como de borracha”, esclarece. O bairro do Jardim e Magoanine completam com Xiquelene o trio que elevou a violência aos níveis mais altos nos dias 1 e de Setembro. O bairro do Triunfo e Av. Acordos de Lusaka vêm na segunda divisão da violência.

No Xiquelene, por exemplo, para a Polícia chegar até a ponte que fica no fundo do mercado, na Av. Julius Nyerere, foi preciso a intervenção de uma coluna.

Morreram mais do que dizem Depois dos protestos, os números oficiais contavam 13 mortos e 400 feridos, mas João não acredita. “Morreram mais pessoas, mas os dados
não foram avançados.” Em alguns casos a Polícia foi negligente e Obede
cita o que aconteceu no bairro Luís Cabral, onde um jovem foi perseguido e atingido mortalmente com balas reais.

Polícia também é povo

“Trabalhamos 30 dias e o salário só dura três ou cinco”, diz e acrescenta: “Muitos dos que queimaram pneus e atiraram pedras fazem contas para chegar ao fim do mês.” Por isso, garante, “não é fácil estar por detrás da arma que dispara contra o povo. Até porque esse povo “é nossa imagem e semelhança”. Aliás, “quem não tem pão somos
nós; quem reclama o custo de vida somos nós; o gás e o arroz subiram para o povo e, como deve calcular, com o salário do polícia não é possível não sentir os efeitos desse problema. Por isso, não é difícil concluir que, apesar do fardamento, também somos parte do povo.

Efectivamente, “é fácil condenar, mas antes é preciso compreender que, se fosse possível, estaríamos do lado dos que reclamavam pelo custo de vida. Bem no fundo, nós estávamos a torcer para que tudo desse certo”, refere. Na verdade, “disparar contra o povo foi um acto de dor”, afirma.

No entanto, as manifestações, no entender de João, não pararam por conta da acção da Polícia. O povo não se organizou para o efeito e as pessoas que estavam na rua vivem de pequenos biscates. “O dinheiro que fazem na rua serve para resolver problemas imediatos e, passados dois dias, já não tinham o que comer e foi por isso que voltaram ao trabalho”, acredita.

Os agentes ouvidos pelo @Verdade concordam com as manifestações, desde que não sejam violentas. “Apoiaremos uma greve pacífica”, diz João Sem Vontade. “Se as pessoas cruzarem os braços e não fizerem nada, como os madgermanes, a Polícia não tem razões para reprimir esse tipo de greve”, acrescenta Obede Carlos.

O trauma

Quando Silvério entrou para a Polícia, jamais pensou que o preço do sonho de manter a ordem pública, cultivado por milhares de jovens moçambicanos como ele, se tornaria uma cicatriz, gravada para sempre na sua vida sob a forma de um trauma. “Não me consigo esquecer do Hélio”, confessa. Estava no carro de onde saiu o tiro que o atingiu.
Silvério só não diz quem disparou. “Éramos muitos e é difícil saber de quem foi o tiro nestas circunstâncias. No entanto, vou viver com a incerteza de ter sido meu. É uma marca me que vai perseguir até à cova. E o pior é que não era alguém que estava na manifestação. Soube pelos jornais que se tratava de um estudante. Como é que podes viver em paz quando as imagens mostram sangue e livros?” Acrescenta: “Talvez
Hélio tivesse, um dia, a instrução que eu não tive.”

Uma profissão miserável

Obede Carlos fala abertamente sobre os perigos da profissão. “A Polícia não tem meios para reprimir o crime. Não temos protecção nenhuma e estamos à mercê dos malfeitores. Não temos subsídio de risco e o salário, já se sabe, é uma vergonha. Isto é uma profissão para sobreviver.” João não gosta do que faz e se pudesse arranjava outro trabalho, mas confessa que não tem “outro modo de vida”. Silvério é
ainda mais contundente: “Se eu morrer a minha família fica na maior desgraça.”

Silvério diz que a situação melhorou mas reconhece que os meios não são os mais adequados. “Actualmente conseguimos cobrir a cidade por causa das viaturas, mas não é normal o polícia fazer 24 horas de serviço, sem descanso e refeição.
Como não é possível regressar aos nossos lares para passar as refeições, temos de gastar o nosso dinheiro para nos alimentarmos.
Nestes dias temos direito a alimentação, mas é só por conta das manifestações”, revela João. Depois disto, “o luxo vai acabar.”

Segundo as nossas fontes, alguns membros da corporação trabalharam mais do que 72 horas. Obede, com o dedo em riste, diz que é um deles.
“Trabalhei terça, quarta, quinta”. Jacinto afirma que “o polícia, por norma, trabalha 24 horas, mas mesmo isso é desumano. Ninguém trabalha 24 horas”. No entender de João, isso é escravatura. Aliás, algumas mortes podem ser explicadas pelo cansaço dos homens da lei. “Olha para o caso de Obede quando enfrentou a população já tinha mais de 24 horas. Que discernimento é que ele tinha para lidar com a situação?”

Andar com arma é um risco

Apesar de reconhecerem que os polícias não têm meios para a sua defesa pessoal julgam que “não ter arma é uma protecção. Quando as pessoas sabem que tens uma arma perseguem-te e corres o risco de ser assassinado, mas o pior é quando te roubam a arma. Como justificas?

* Nomes fictícios