Thursday, 13 August 2009

Carta de Machado da Graca a Judite

Bom-dia, Judite
Desejo que tudo esteja bem contigo, como está,
felizmente, comigo e com a minha família.
A razão que me leva a escrever-te, hoje, são duas
histórias que nos andam a ser contadas nos últimos
dias. E que eu acho que andam a ser muito mal
contadas.
Estou a falar da participação de moçambicanos
numa tentativa desastrosa de golpe militar no
Lesotho e de um ataque de polícias malauianos a
um posto das nossas Forças de Guarda-Fronteira
no Niassa.
Mas comecemos pelo primeiro caso.
As notícias têm chegado aos bocados e com dados
bastante diferentes. O número de moçambicanos
mortos na aventura tem variado desde mais de 20
até três ou quatro. Sabe-se de uns poucos presos,
um no Lesotho e outros na África do Sul. Do grupo
inicial não há notícias da maior parte dos homens.
E depois contam-nos uma história de que esses
moçambicanos terão sido levados ao engano,
convencidos de que iriam trabalhar para uma empresa
de segurança numa mina sul-africana. Depois terão
sido levados para perto da fronteira do Lesotho e,
por fim, terão entrado naquele país para participar
num golpe que teria o apoio das forças de segurança
suthos.
Mesmo que esta história seja verdadeira, que os
homens tenham partido pensando que iam trabalhar
para uma legítima empresa de segurança, o facto é
que os moçambicanos que entraram no Lesotho, de
armas na mão, já sabiam perfeitamente o que
estavam a fazer. E, em nenhuma das versões que já
li, se diz que terão sido obrigados a embarcar na
aventura.
Lamento ter que concluir, portanto, que se tratou
de um acto de mercenarismo, condenado e punido
pela legislação internacional e, ao que creio, pela
nossa legislação interna.
Cabe, portanto, às nossas autoridades o dever
de investigar devidamente o assunto e, caso os
desaparecidos estejam em território nacional,
proceder em relação a eles com todo o peso da lei.
Não creio que seja prestigiante para o país saberse
que Moçambique é fonte de recrutamento de
mercenários para derrubar legítimos governos de
outros países. Neste caso ainda por cima um parceiro
nosso na SADC.
No segundo caso a situação também parece
bastante estranha: Um grupo de pessoas, fardadas
de polícias do Malaui, ataca e destrói um posto da
nossa Guarda-Fronteira no Niassa.
A única tentativa de explicação que já li parece
bastante esfarrapada. Segundo essa versão o ataque
terá sido motivado pelo facto de as nossas
autoridades estarem a ser mais rigorosas no combate
ao contrabando trans-fronteiriço.
Ora essa justificação poderia ser certa se o
ataque tivesse sido feito pelos tais contrabandistas.
Faria sentido.
Agora um ataque por polícias malauianos, que
deveriam ser aliados dos nossos no combate ao
contrabando? Onde está o sentido disso?
E é muito provável que se tratasse, de facto, de
polícias. O ataque terá começado com o lançamento
de uma granada de gás lacrimogénio e esse tipo de
equipamento está, normalmente, nas mãos das forças
policiais e não dos contrabandistas.
Há, portanto, que saber o que aconteceu de facto.
Não acredito que um grupo de polícias tenha
acordado um dia e decidido ir atacar o posto assim
de qualquer maneira.
Já vi, ao longo da vida, coisas destas acontecerem
por razões aparentemente de pouca monta, até
mesmo por questões de saias, mas nunca sem razão
nenhuma.
Portanto, minha boa amiga, gostaria que, quer
num caso, quer no outro, as coisas sejam devidamente
investigadas e divulgadas e, onde houver
responsabilidades, que as devidas medidas punitivas
sejam aplicadas.
Os dois casos envolvem questões de segurança e
envolvem parceiros nossos na SADC.
E, com essas coisas, não é bom brincar...
Um beijo para ti do

Machado

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