Tuesday, 10 February 2009

SÓ O QUE ACONTECEU - Amarrar chuva!!!

A historia da crónica que se segue não tem validade cientifica. Não tem cobertura, nem comprovação cientifica. Não pretendo sustentar qualquer corrente. Nem dos “prós” nem dos “contras”. Nela sou neutro. Esta historia pode ser absurda e sem qualquer espaço na “escola” da ciência, mas pode ser defendida, com argumentos próprios na “escola” da tradição, do curandeirismo, do feitiço e do “kuxo-kuxo”.
Maputo, Segunda-Feira, 9 de Fevereiro de 2009:: Notícias

Vamos a ela:
Naquela manha, a minha mãe, finalmente anunciou a aguardada noticia: - olha, a nossa viagem é já amanhã.
A partir daquele momento, o “meu vulcão” de euforia adormecido há semanas entrou imediatamente em erupção. A emoção tomou conta de mim. Esperneie, pulei, gritei, dei pinos, “fliks” e “mortais”. Finalmente ia voltar a viajar, depois de alguns anitos. E ainda por cima ir a casa dos meus avos, lá em Majaua, terra de cordão umbilical, no distrito de Morrumbala. Era Dezembro de 1976, período de ferias escolares. A viagem levaria dias...talvez semanas. Iríamos partir da Vila Cabral, hoje Lichinga para o interior da província da Zambézia. Ou seja, de Niassa a Zambézia. Iríamos usar vários meios, desde comboio, machimbombo e camião de madeira.
No dia seguinte, meu pai levou-nos a estação de comboio. Éramos só dois: eu e minha mãe. Embarcamos. Ocupamos um camarote. A locomotiva tinha um café e restaurante.
Quando chegamos a Nova-Frexo, hoje Cuamba, ponto onde eu e minha mãe íamos descer. Na hora de desembarcar, eu tinha a perna inchada. Não conseguia pousar o pé. Motivo: na véspera, tinha tropeçado e caído “forte e feio” nas escadas, quando “celebrava” a noticia sobre a viagem. Na hora daquela queda, eu fingi que “aquilo não era nada”, fiz um esforço titânico para não dar muito nas vistas. Fazia tudo para encobrir a minha terrível dor. Tinha receio que me dissessem “você fica!”... e eu queria ir ver os meus avos, lá na “terra”. Em Majaua.
Ora, naquela vila de Cuamba, criei grandes transtornos a minha mãe, por sinal sem grandes experiências em viagens de longo curso. Todas as anteriores deslocações ela tinha feito acompanhada sempre por meu pai. Naquela situação, minha mãe ficou muito atrapalhada. Desenrascou-se e fui transportado ao hospital local. Numa cidade em transito, não foi fácil para nós os dois.
No dia seguinte, apanhamos um autocarro para Alto-Molócuè. Comemos centenas de quilómetros de terra batida. De Molocué, para a cidade de Mocuba apanhamos o machimbombo “Transportes Simões”. Foram dias de viagem.
Em Mocuba apanhamos um camião pertencente a empresa de madeira Hermínio Sacras, e ao volante estava um tio: Morais Ventura ( conhecido por “Mugunha Oriba”).
Quando chegamos a “casa”, foi feita aquela processão de sempre: uma fila interminável de tias, primas, etc e cada uma trazia uma peneira contendo ovos, galinhas, mandioca seca ( “magagada”), cachos de banana, amendoim, carne seca de caça, cocos etc.
Eram assim de manha, a tarde e a noite. Alguns familiares chegavam com os olhos abundantes de lagrimas: choravam alto, anunciando a perda de um ente querido ocorrido durante a nossa ausência.
Ora, numa manha, a aldeia acorda agitada. Um grupo de anciãos segue a casa do régulo "mwene Majaua". Os meus avos, também foram convocados a esse encontro na casa do “mambo”. A pacata povoação vivia um clima de tensão. Todos falavam em voz baixa. Cochichavam. Como a querer conspirar algo. As suas faces mostravam determinação. Iam a casa do “mambo” para resolver um problema grave.
Tudo aquilo me criava alguma confusão na cabeça.
A reunião lá em casa do regulo foi demorada. Depois de tanta discussão alguns anciãos partiram, em silencio para uma casa que distava há um quilometro dali. Era por sinal, um familiar ( naquela povoação todos tem laços de familiaridade. Casam-se entre si. Primas, sobrinhos, tios etc. Há muita consanguinidade).
Chegados na referida palhota, os anciãos de forma ordeira, dirigiram-se ao anfitrião que respeitosamente os recebeu. Quem usou da palavra foi um mandatário do “mwene” Majaua que explicou a causa daquela vista. Quem falou era um velho curandeiro. Acusava sem rodeios que estavam ali porque “tinham certeza” que ele era o autor da “amarra da chuva”. Não chovia ha sensivelmente seis meses. Na lógica deles, aquilo era estranho. Tantas luas sem chover, não era possível! Tinha que ter uma causa. E também um autor. E na “makanga” realizada ( processo de adivinha) todas as “setas” apontavam indiscutivelmente para aquele homem ali. Ele é que tinha amarrado a chuva. Era ele sem tirar nem por! Ninguém tinha duvidas!
Ao visado, um ancião respeitado na aldeia foi-lhe convidado a “desamarrar a chuva” imediatamente. Mas sem distúrbio. E antes exigiram que se confessasse. Que explicasse a sua motivação. Afinal, porque ele resolvera apertar as barrigas dos aldeãos com fome, por causa da seca? Que mal lhe tinham feito?
E o grupo exigia que ele “desatasse a chuva” e depois se explicasse o porque da sua vingança. Porque nestas coisas, tudo indica que há sempre contas do passado a saldar. Quase que ninguém feitiça outrém sem causa, pelo menos aparente.
O velho, rodeado pelos seus visitantes, não deu voltas e no inquérito que lhe era dirigido disse: “sim fui eu que amarrei a chuva. Eu prendi a chuva porque o velho Marruô me abusou numa sentada de “Katchasso”(aguardente). E ele desafiou-me em público. Então eu fiz isto para mostra-lo que ele que não é nada para mim. Ele pá mim, é um “mwana-mwana. Que ele não brinque comigo, porque eu sou "mhoto-mhoto" e vocês todos sabem muito bem disso! Não gosto que me abusem!”.
Interrompeu o discurso dirigindo-se para as traseiras da palhota, onde tinha o seu “laboratório de feitiço”, onde tinha panelinhas de barro, serpentes vivas, ossada humana, gatos pretos, rabo de animais ferozes etc. Acompanhava-o a esposa, sua cúmplice.
E foi num gesto quase insignificante que aquele feiticeiro abriu a “torneira” do céu. De repente, o dia ficou nublado. As nuvens ficaram grávidas de gotas. Confirmava-se então para os mais cépticos que “afinal a chuva tinha sido realmente amarrada”!
Não tardou que começasse a chover torrencialmente. A cântaros. De um momento para o outro, a seca ficou coisa do passado. Era chuva de “venha ver”! Água em abundância.
O grupo mandatado pelo “”mwene”, saiu dali ensopado. Molhado até aos ossos. O relatório que levavam para o régulo era quase desnecessário...afinal toda a aldeia testemunhava a chuva que caia “forte e feio”. Tinha sido desatada! Ouviam-se rufares de tambores por toda aldeia Majaua. Que alegria. A chuva tinha sido desamarada, “daqui para aqui”.
• Albino Moisés - sesalbino@yahoo.com.br

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