Monday, 16 February 2009

Quem “tramou” Bernardo? ou os contornos do processo de decisao na Zambezia

De Mocuba para Mongicual

Quelimane (DZ) – Está acesa a guerra étnica no seio dos camaradas e membros do partido Frelimo na Província da Zambézia. Há transferências a todos níveis, quer na máquina da Justiça assim como na Administração Pública, entre outros sectores.
Mas isto tudo também tem algum suporte partidário e quem vem acompanhando estas coisas de política interna, pelo menos na Zambézia, já entende como é que as coisas são.
Contra todas as expectativas vai já cair um dos considerados Administradores mais antigos do Governo da Zambézia. Trata-se de Bernardo João António, que até ao fecho desta edição vinha desempenhando as funções de Administrador do Distrito de
Mocuba, mas que já está de malas feitas para o Distrito de Mongicual, Província de
Nampula, norte do país.
Ao que o Diário da Zambézia apurou de fonte seguras e que por motivos de segurança não podemos menciona-los, é que para o lugar de Bernardo, já foi indicado António Molde Gusse, actual Representante do Estado, no Município de Quelimane.
Vamos aos possíveis contornos da saída de Bernardo:
Esta análise que pretendemos fazer não tem base literária, mas sim baseamo-nos em depoimentos de muitos camaradas que são membros da Frelimo na Zambézia e outros tantos que têm vindo a colaborar com o nosso jornal para sustentar alguns dados.
Ora bem, Bernardo António é natural do Ile, a norte da Zambézia e claramente vê-se que é da étnia lómùe. Mas para além disso, este homem tem um longo curriculum na administração pública, porque até já foi chefe do Gabinete do governador e dai, as
coisas não correram bem e foi indicado para ser Administrador do Distrito de Namarrói. Ficou lá o tempo necessário e transformou Namarrói tirando-o assim o
isolamento a que esteve sujeito.
Já na Governação de Carvalho Muária, talvez olhando nas suas competências, veio a Mocuba para desempenhar as mesmas funções. E aqui, tudo começa.
Sendo Mocuba um município, por sinal o segundo da província da Zambézia, cada um dos dirigentes de alto nível tem interesses, quer económicos, sociais e até partidários.
No ano passado, quando se preparavam as eleições municipais, Mocuba não fugiu a regra. A Frelimo, sentou-se e procurou através das bases um candidato ideal para dirigir o município de Mocuba. As tais bases decidiram por meio de votos que o candidato forte e ideal para a Frelimo e também que deveria estar a guiar os destinos do povo de Mocuba, seria Raúl Joaquim. Votou-se nele e ganhou nas internas,
deixando para trás Rogério Gaspar, que concorria para sua própria sucessão, mas que as bases não acreditaram que ele fosse capaz para dar alegrias aos camaradas,
por mais cinco anos.
Rogério perdeu e Raúl foi assim declarado candidatado da Frelimo para as eleições autárquicas no Município de Mocuba. Dias depois, começaram as conversas nos cafés,
chapa-100, hotéis, segundo as quais, Raúl não tinha capacidade de dirigir o município. Se foi ou não mão de alguém, aliás, até que categoricamente pode se afirmar que houve uma mão de alguém, porque a Polícia da República de Moçambique (PRM), afirmou que Raúl foi assassinado no Malawi por gente que até agora se desconhece.
Era uma aventura que durou pouco, porque o malogrado nem sequer teve a chance de ser um candidato vencedor ou derrotado. Resultado, Gaspar, segundo mais votado, teve
que reassumir o cargo e reacenderam as esperanças de muitos daqueles que vêm Mocuba
como um excelente corredor de passagem.
A culpa de Bernardo
Sendo Raúl da mesma étnia do Bernardo(se não estamos errados), algumas vozes já vieram ao de cima dizer que era o Bernardo que estava fomentar o tribalismo em Mocuba, e como consequência disso, deixou perder Rogério Gaspar e fez com que as tais bases votassem no malogrado Raúl (que Deus o tenha).
Começavam assim a recair as culpas para o administrador, visto que para além de desempenhar as funções na administração pública, neste país, os dirigentes também tem
missão no partido. Tudo a mistura.
O tempo foi passando e as coisas não ficaram bem. Um informador nosso por sinal membro do partido, disse-nos que uma das vezes que um dirigente máximo da Frelimo quando esteve de visita em Mocuba, deu uma palmadinha nas costas do Bernardo e
disse “Meu filho, dizem que estas a fomentar o tribalismo aqui…”- estivemos a citar as palavras do tal dirigente da Frelimo, extraídas da conversa que o nosso jornal teve com o informador.
Mais adiante, a fonte acrescentou que, de lá para cá, o actual administrador nunca teve paz quer no governo assim como no partido.
Pressão aqui, pressão acolá. As acusações foram as mesmas de quem Bernardo estava fomentar tribalismo.
Calmo, sereno e tranquilo, Bernardo ficou a espera da decisão final, porque
afinal este assunto foi material de debate em muitos fóruns do partido.
“Temos que transferir o homem senão…”
Uma fonte do governo que também deu a colaboração para a explanação deste artigo, disse nos que ouviu pela primeira vez num fórum restrito do governo sobre a questão do Bernardo e a única que reteve foi “temos que transferir o homem, senão…”. A coisa ganhou impacto e a proposta como de sempre foi submetida ao partido, como forma de
apenas confirmar e dar o OK.
Mesmo que este OK não seja do domínio público, a nossa fonte assegurou que já foi feita a transferência de Bernardo para o Distrito de Mongicual em Nampula.
Quando questionamos o nosso interlocutor se este foi o argumento principal da mudança, este não gaguejou e peremptoriamente disse que “não me pergunte sobre outra coisa, porque vocês sabem que quem manda no governo é o partido e algumas pessoas”-rematou para depois acrescentar que “se querem saber quem são estas pessoas, então eu
perco o emprego. Vocês dão pão a minha família?”-inquiriu.
Gusse para Mocuba?
Está dito, António Molde Gusse, actual representante do estado no município de Quelimane, vai a Mocuba.
Um analista político que contactamos para dar algum ponto de vista sobre a
sucessão de Gusse ao Bernardo, disse que há que olhar em três vertentes:
Primeira, Gusse pode ter sido visto como aquele que vai acomodar alguns
interesses dos camaradas do topo, visto que ele faz parte, segundo este analista,
do grupo dos YES MAN.
Segunda, este poderá não ter sucessos porque também carrega nas suas costas a bagagem de ser um técnico superior no distrito e isso poderá não ser bom para o seu desempenho ao nível da máquina governamental.
A terceira e última vertente é que Gusse poderá sair-se mal sucedido, porque possivelmente a saída de Bernardo, deixa muitas mágoas no seio do partido e também nos funcionários da administração pública.
Este nosso analista, garantiu-nos que a única coisa que resta é esperar para ver
até onde vão estas decisões que ele considera de precipitadas e de gente que
quer ver o partido a afundar-se.
Face a estas análises todas, resta perguntar, “mas quem tramou Bernardo”?
(Redacção)

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