Thursday, 8 January 2009

A Opiniao de Leonel Magaia

N´um Val´Pena! - Assistir sem ver

Neste mundo há com cada uma. Então um indivíduo, por volta de 1840, tem um laivo distraído de inteligência e vai daí que inventou a televisão. Como resultado disso, em 1889 realizaram-se as primeiras emissões experimentais de meia hora, cinco dias por semana. Quando em 1939, a RCA exibiu o primeiro protótipo de um televisor, ninguém previa que aquela pequena caixa, parecida com um aparelho de rádio, pudesse deixar tantas marcas.

Considerada um dos melhores inventos do séc. XX, a televisão joga com os instintos mais primários do ser humano. Hoje a televisão é uma das maiores invenções de todos os tempos. Legiões e legiões de assistidores de televisão destilam horas a fio em frente à chamada caixa mágica e deliram face às diabruras dos seus heróis imaginários. A televisão é sem dúvidas um meio difusor de uma cultura de massas. Dirige-se a uma massa social, isto é, um gigantesco aglomerado de indivíduos.

Mais do que um meio difusor de cultura de massas, a televisão hoje permitiu, particularmente às classes económicas mais baixas, um contacto com realidades culturais que até aqui lhes eram totalmente vedadas, permitiu igualmente o acesso a conhecimentos globais. Trouxe-nos grandes vantagens sem dúvidas. Mas porque não há bela sem senão, a realidade prova que o cidadão que mais poderia usufruir das vantagens da televisão se tornou vítima desta nova "ditadura".

O mesmo será dizer que Homem criou falsos valores e mitos, provocando um desgaste inútil. Hoje estudos mostram que a televisão estimula o isolamento e a dependência, surgindo então a imagem do "novo ópio do povo". Somos efectivamente uma geração de tóxicodependentes de imagens que nos acompanham e atacam diariamente - basta lembrar que actualmente e segundo estatísticas conhecidas, recebemos em média, consciente ou inconscientemente, 1500 mensagens publicitárias por dia, o que leva a que os hábitos sociais e familiares sejam literalmente alterados.

A verdade é que esta forma "recente" de expressão popular, esta utilização comercial do génio inventivo do séc. XX, afecta a vida de toda a população do mundo. Afecta a nossa perspectiva, os nossos desejos, a nossa moral social e política. Coloca instrumentos à disposição de certas pessoas suficientemente ambiciosas para os controlar: políticos, empresários, artistas e homens de negócios. Representa a revolução essencial de comunicações que caracteriza e alimenta o nosso século.

Infelizmente, a televisão insere-se na vida do adolescente de hoje como uma proposta alternativa à escola, como "uma escola paralela", quantitativamente quase equivalente (se não superior) à escola oficial, qualitativamente mais agradável e eficaz porque menos estruturada e pelo menos, aparentemente, escolhida livremente. Aliás, um inquérito feito pelos serviços italianos da RAI-TV indicou que perto de três milhões de adolescentes (de idades entre os 8 e 13 anos) assistem diariamente aos programas da TV. Sabendo-se que o adolescente ocupa semanalmente 20 horas a ver televisão, isto é, quase tantas como as que ocupa no ambiente escolar. Seria interessante um inquérito para o caso de Moçambique. Aliás, são mesmo as televisões moçambicanas que me inspiraram para a crónica de hoje. Repare-se que a fome de publicidade faz com que o pequeno écran se torne ainda mais pequeno. Num pacato jogo de futebol transmitido pelas nossas televisões temos o rectángulo mágico todo preenchido: no canto superior direito uma tarja publicitária, no esquerdo o resultado do jogo, no inferior esquerdo outra tarja publicitária animada, no direito os comentadores.

Pelo meio os rodapés com as enervantes gralhas e erro ortográficos de bradar os céus. Ficámos com um ridículo minúsculo espaço, que entretanto não escapa à concorrência de outras desgastantes agendas publicitárias de permeio. Desaparece o fascínio mágico e perfila aos nossos esbugalhados olhos a pérfida imagem da persuasão inconsciente do telespectador, com a programação escamoteada de toda a sorte de ideias, produtos, valores, princípios ideológicos, uma verdadeira romaria sobre os efeitos dos anúncios e comerciais, de forma a propagar os produtos de forma implícita. Tudo isso em detrimento do produto "futebol" entretanto anunciado. Falei de futebol, podia ser qualquer outro produto. Por exemplo as desgastantes interrupções de novelas para clichés publicitários. Alguns desses clichés chegam mesmo a ser mais longos que a própria sequência da novela. Passa então a haver mais publicidade que outra coisa.

Fica assim claro então que com os seus programas a televisão tende a nivelar as mentes dos que assistem às transmissões e não podemos também esquecer que quem dirige a televisão tem prioritariamente objectivos comerciais e, neste sentido, forma mentalidades, manipula consciências, tem capacidade de persuasão e de argumentação. O problema é que só assistimos e quase nada vemos.

PS. Já agora, alguém me explica como é possível que ainda a começar um programa, por exemplo um debate televisivo, e já estejam a circular em rodapé notas, sublinhe-se cheias de gralhas e erros clamorosos, do tipo: "estou a adorar...vocês são o máximo..."; "...continuem assim..."; "...acho que têm razão..."; ...beijinhos à minha cara metade, o programa tá nice..." e por aí em diante!

Ciao.

leoabranches@yahoo.com.br

Leonel Magaia - leoabranches@yahoo.com.br


Maputo, Quinta-Feira, 8 de Janeiro de 2009:: Notícias

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