Friday, 9 January 2009

A Opinao de Victor Machirica

MONTE BINGA - Bombeiros só para salários

O PERÍODO chuvoso em que o país está mergulhado e que a província de Manica não escapa à regra, remeteu-me a novas experiências nesta vida repleta de coisas inéditas. Fiquei a conhecer que, afinal de contas, a actual situação dos bombeiros de Chimoio, cidade capital da província central de Manica, deixa muito a desejar.Maputo, Sexta-Feira, 9 de Janeiro de 2009:: Notícias
Por volta das 19.00 horas, dirigi-me ao comando dos chamados “soldados da paz” depois que “a carne da minha carne e osso dos meus ossos”, segundo as Escrituras Sagradas, surpreendeu-me com uma opinião que achei de bastante genial para resolver o problema de uma fossa céptica que desmoronou, na sequência das referidas chuvas, ameaçando derrubar a casa do articulista.

Após matutar mil uma vezes sem encontrar solução de como entulhar a fossa e desta feita evitar o desmoronamento da casa, numa altura em que os bolsos não respiram convenientemente para se procurar pelas empresas de construção civil e realizar o trabalho com a comodidade e dignidade que seriam merecidas, a ideia que apareceu foi de contactar os bombeiros.

Com eles, esperávamos que pudéssemos esvaziar a fossa da água que ali se introduziu, para depois, usando os nossos parcos recursos, procedermos o que faltasse para resolver o problema. Só que, para o meu espanto, chegado ao comando dos “soldados da paz”, não havia mais nada senão quatro homens desprovidos de todos os meios para atender qualquer que fosse a solicitação dos munícipes.

Fardados daquele seu uniforme azul com o boné que se aparenta a um barco, alguns dos quais patenteados com insígnias douradas, os homens disseram-me, numa situação que eu próprio compreendi, que a única viatura operativa provida de uma electrobomba para chupar e lançar jactos de água encontrava-se avariada já vai algum tempo e que daí para cá solicitações desta e de outro natureza não têm como acudir.

Na sua óptica, se ela estivesse operacional e se a electrobomba que lhe está acoplada estivesse igualmente em boas condições, poderiam deslocar a viatura e ajudar o munícipe a se livrar dos danos que espreitam a sua obra e a sua casa.

Aliás, bombeiros não são apenas aqueles homens e o treino que tiveram para apagar fogo ou atender outras situações da sua responsabilidade. Eles, para poderem fazer algo, precisam de estar equipados de meios de trabalho, com os quais poderiam, no mínimo, ser criativos e evitar aquela vergonha de não ter nada a dizer e uma ideia alternativa para resolver um problema concreto que lhes foi apresentado.

Foi assim que foram bastante sinceros, dizendo que “ a sua (minha) preocupação estamos a sentir, mas não nos ocorre nada que possamos fazer para lhe ajudar em razão da falta de meios que o informamos e no mínimo de transporte para chegar ao local e aí, pelo menos, proceder a avaliação do problema para eventual solução”.

Vi que tinha gasto o meu rico tempo em procurar por pessoas que já perderam a combatividade e ética de trabalho, acabando por emitir respostas menos adultas para pessoas que estão preocupadas para resolver um problema grave e sério.

Pediram que os transportasse, se tivesse carro próprio ou então alugasse um táxi para os levar ao local em causa, a fim de proceder a referida avaliação. Ora, entre eles irem lá proceder esta avaliação e encontrar outras formas alternativas de solução para o problema, ocorreu-me a necessidade de embarcar na segunda opção.

Ao invés de alugar um táxi para atender uma instituição cuja vocação é cuidar de assuntos de emergência, achei por bem usar o dinheiro na compra de sacos vazios e ao longo da noite ir vedando as passagens de água para, no mínimo, retardar a queda do edifício que a erosão ameaça engolir.

Pois sabia que, sendo noite, a única solução paliativa que me assistia não deveria ser avaliação, pois receava que, se demorasse, uma nova descarga pluviométrica pudesse apagar a esperança de um dia sonhar num quarto erguido à custa do labor diário e do sacrifício e falta de oportunidades que é conhecido aos jornalistas.

Regressei á casa. Antes de me retirar do comando dos bombeiros, lancei um desafio, em forma de opinião: porque é que homens adultos como vocês ficam aqui a dormir sabendo de antemão que não poderão fazer nada, pelo menos em termos de mobilidade, para atender eventuais incidentes?

Vi neles muita ingenuidade mas também muito sentido de respeito pelas hierarquias. Não falaram mal de ninguém, mas apenas da avaria dos seus meios de trabalho, como se esses meios, sozinhos, podessem se reerguer e voltar a trabalhar sem precisar da inteligência humana e de meios financeiros.

Deixam esposas e filhos em casa, perdem noites em que deveriam dedicar amor aos seus rebentos e cônjuges, para ir se deitar, inoperacionais, numa casa que se chama de comando de bombeiros que disso apenas sobrou essa própria casa.

De tanto estarem esvaziados de meios, pura e simplesmente não trabalham, chegando ao serviço para marcar o livro de ponto, no sentido de que não sejam considerados indisciplinados e despidos da responsabilidade que lhes assiste como “soldados da paz”.

Não sei se haveria soldado que assim se chamasse sem arma. Os bombeiros de Chimoio não têm armas que necessitam para combater seja o que for, a menos que seja para resgatar, tardiamente, corpos inertes mortos em poços, como tem sido hábito.

Os nossos bombeiros só estão no comando à espera do salário que, por não terem culpa, esperam receber em cada fim do mês. E, vezes sem conta, vão assistindo impávidos e serenamente a situações desastrosas que poderiam evitar, se estivessem naquela prontidão que a profissão lhes obriga.

VÍCTOR MACHIRICA In Noticias. 09.01.09

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