Wednesday, 9 July 2008

A OPINIAO DE ELISO MACAMO

Robert Mugabe
Zimbabwe: se calhar tinha razão Samora (1)
SEMPRE o Zimbabwe, sempre Mugabe. E sempre as mesmas opções: contra ou por Mugabe. Sempre os mesmos argumentos diabolizantes, sempre a conclusão de conluio entre ditadores. E cada nova derrapagem do Zimbabwe e de seu líder cada vez mais senil, sempre mais pseudo-análises triunfais a repetir os mesmos lugares-comuns de sempre. Estamos mal com aquele país. Maldita hora em que o acaso quis que fossemos vizinhos. Um dos maiores problemas com este assunto chato do Zimbabwe é simplesmente de saber como começar a falar dele. Por onde começar? Na verdade, tudo estraga-se aí mesmo.
Maputo, Quarta-Feira, 9 de Julho de 2008:: Notícias

Quando é que o problema começou? Com a chegada de Mzilikaze na terceira década do século XIX a fugir de Txaka? Iria isso explicar o destino dos Ndebele, de Joshua Nkomo e as acções da quinta brigada treinada pelos coreanos nos anos oitenta do século passado? Ou começamos em 1889 quando os britânicos deram à Companhia Britânica da África do Sul (BSA), de Cecil Rhodes um mandato para colonizar a região que mais tarde viria a se chamar Rodésia do Sul? Devemos mencionar a resistência heróica dos Matabele, cruelmente demolida em 1893? Ou vamos começar em 1922 quando termina o mandato da companhia e começa uma forma de governo “autónoma” reservado apenas aos brancos?
Mugabe quereria, de certeza, que começássemos em 1930, este ano fatídico para os negros daquele país, quando a administração colonial aprovou a tristemente famosa lei de apropriação de terras (land apportionment act) que restringia o acesso dos negros à terra? O mito da produtividade agrícola dos fazendeiros brancos nasceu aqui; e como todos os mitos teve que primeiro apagar a realidade. Até então, os negros daquele país estavam a revelar-se bons agricultores, mas o sistema colonial precisava deles para trabalharem a terra como empregados de farmeiros brancos e para serem operários na indústria emergente.
Ou tudo começou com a declaração unilateral da independência em 1965? Aí nós também poderíamos dizer uma e outra palavrinha. A defesa dessa “independência” implicou também a destruição parcial de Moçambique pelo Exército rodesiano. E não só. Quem vem de províncias fronteiriças sabe também que era preciso estar alerta à sirene que avisava da iminência de bombardeamentos aéreos. Pilotos brancos rodesianos em caças franceses da marca “Mirage” à caça de terroristas em campos de refugiados dentro de cidades. E naquela altura não se podia aplicar sanções ao regime – o mesmo valia para a África do Sul do apartheid – porque senão quem iria sofrer era o povo. Faz sentido como, aliás, estamos a ver no Zimbabwe de hoje.
Nós os moçambicanos devíamos se calhar datar os problemas do Zimbabwe a partir do Acordo de Lancaster House, através dos bons ofícios do nosso saudoso. Aquele acordo permitiu a transição política naquele país, mas também lançou algumas das sementes que foram germinando nos anos oitenta e estão agora a florescer sobre os escombros deste país vizinho. Abro um parêntesis para comentar um aspecto que volta e meia vem à baila quando se discute o Zimbabwe. Diz-se que Samora costumava dizer a Mugabe para resolver o problema da terra, mas nunca se explica em que sentido ele entendia essa resolução. Suponho, mas espero que os que privaram com Samora me corrijam, que a desigualdade económica reinante no Zimbabwe ofendesse o sentido de justiça do nosso malogrado. Suponho que Samora estivesse a chamar à atenção de Mugabe para que não se deixasse levar por aqueles que o festejavam como grande estadista por não ter tocado na estrutura económica do país. Não é proibido especular.
A introdução já vai longa. Faltava ainda dizer que se calhar a história começa em 2000 com as ocupações violentas e maciças de propriedades de brancos. Se calhar, tudo se estragou aí, aí sim, o Ocidente tinha mesmo que intervir. As cerca de 10 mil pessoas que se supõe terem sido mortas durante as campanhas da quinta brigada na terra dos Matabele nos anos oitenta não conseguiram comover o coração profundamente humanista dos ocidentais. A prática contínua e insistente de intolerância contra a oposição nos anos oitenta também não foi suficiente. Vê-se também no número de zimbabweanos negros em fuga do regime de Mugabe e à procura de asilo ou refúgio na Europa. São poucos os que são aceites como tal; são refugiados económicos. Aos brancos até se dá passaporte nacional. Na Grã-Bretanha, na Austrália e na Nova Zelândia.
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1 comment:

Anonymous said...

Análise interessante.
Só que pra mim, ó Araujo, esta análise peca por considerar que, os que criticam a acção política de Mugabe hoje, o fazem simplesmente por deconhecerem a história da ocupação da terra no Zimbabwe, por um lado. Por outro, porque esses críticos não conseguem ver a justiça que Mugabe está tentando impor no seu país. Que pressuposições problemáticas...
O que não consigo perceber, é porquê os que pensam mais do lado de Mugabe, fiquem indiferentes em relação ao clima interno de intolerância política naquele país! E procuram desviar as atenções para o que é crucial.
Hoje o que está em discussão é o problema da fraude eleitoral e a perseguição sem treguas da oposição.
Quem colocou mais votos nas urnas no Zimbabwe a favor da oposição, na 1ª volta, foi o Ocidente? Foi a G. Bretanha, A Austrália ou a New Zelândia?
Porquê relevar esses dados para um plano secundário, procurando apenas justificar a legitimidade histórica das acções políticas de Mugabe?
Porquê Mugabe se outorga o privilégio de se considerar o único que pode defender com legitimidade a causa zimbabweana?
Porquê não aceita a vontade popular, manifestada por "pretos", não ocidentais...

O debate está aberto.

A. C. Cooper